Livros

Não Me Abandone Jamais, de Kazuo Ishiguro

Algumas histórias nos marcam mais profundamente do que outras e a gente sempre quer revisitá-las. Passamos a entender seus personagens e deciframos seus diferentes significados. Uma das histórias que mais me marcaram na vida é Não Me Abandone Jamais. O livro é de 2005, escrito por Kazuo Ishiguro, mas eu só entrei em contato com a história em 2010, com sua adaptação para o cinema. O filme se tornou quase que imediatamente um dos meus favoritos, assisti muitas e muitas vezes, mas só fui ter o livro em mãos recentemente. 

Em uma realidade alternativa, clones foram desenvolvidos pela ciência, com objetivo de doarem seus órgãos vitais para humanos e, na metade do século XX, a expectativa de vida humana chega a ultrapassar 100 anos. Apesar de ser claramente uma ficção científica, todo o ambiente da história faz com que quase esqueçamos disso. A forma de criação desses clones não é especificada, mas sabemos que eles crescem e se desenvolvem como os demais seres, mas são isolados em internatos. 

Acompanhamos, então, a história de Kathy, Ruth e Tommy, três desses clones, que vivem no internato inglês Hailsham, e quando descobrem, no início da adolescência, seu doloroso destino. Para poucos naquele mundo parece ocorrer que aqueles seres sejam também humanos, e poucos se comovem que tenham de abandonar a vida por volta dos 30 anos, após 3 ou 4 doações. A história, então, nos apresenta questionamentos, como a definição de ser humano, de alma, de dever.

Outro fato que gosto muito dessa história é que Hailsham em si era um lugar de maravilhas e mistérios, ao mesmo tempo. Quando os personagens deixam a escola, já no fim da adolescência, passam a descobrir que os demais internatos pouco tinham qualquer preocupação com seus estudantes, nunca sentindo a necessidade de inspirá-los com belezas da humanidade, como a arte, por exemplo.

É claro que o livro é bem mais completo, e me apaixonei ainda mais pela história. Mas o filme, dirigido por Mark Romanek, continua sendo uma ótima adaptação, na minha opinião. Além de sua fidelidade com a história, os cenários escolhidos e a fotografia são lindos, e passam a melancolia e a sensibilidade da história. 

Espero que tenham se interessado pela história 🙂

As Virgens Suicidas

As Virgens Suicidas, livro escrito por Jeffrey Eugenides, de 1993, conta a história das irmãs Lisbon, cinco meninas que decidem tirar suas próprias vidas. Com um desenrolar muito bem construído, o livro é uma obra e tanto e segura o leitor, apesar de revelar o desfecho da história já na primeira página. 

A sensação de sufocamento na vida dos Lisbon é palpável desde o início. Criadas por uma mãe controladora e religiosa, as meninas são impedidas de vivenciar as descobertas da adolescência e o livro começa com o relato da primeira tragédia em suas vidas, que é seguida pela breve esperança de dias melhores. Mas, a partir de certo ponto, a narrativa passa a ser um cronômetro regressivo até o momento da tragédia. Quando tudo se torna pesado, cinzento e qualquer esperança vai se esvaindo. A casa da família Lisbon passa a definhar, assim como a mente e o corpo de seus moradores: uma ruína instalada no meio de um típico bairro subúrbio. E acho que o fator mais especial do livro é a narrativa, que acontece sob o ponto de vista das lembranças dos então garotos da vizinhança, que sentiam, e continuaram a sentir ao longo dos anos, até mesmo depois de adultos, enorme fascinação pelas garotas e decidem reconstruir suas trajetórias, na tentativa de entender seus atos finais.

Por algum motivo, foi no trecho de puro declínio na vida das meninas que o livro mais me envolveu. A maneira como o definho de suas vidas foi narrado é fascinante devido aos simbolismos construídos pelo autor. Banhado por inocência – tanto das protagonistas, quanto dos meninos que as amavam.

Eu já conhecia o filme há vários anos, e depois de assisti-lo outra vez agora, acho que a adaptação foi muito boa. O livro é claramente mais complexo, pelo motivo que já falei: sua escrita é muito bem construída. E o roteiro do filme, apesar de fiel, é bem mais simplório. Porém, todo o ambiente da história foi recriado com perfeição, passando toda a ideia de felicidade superficial que sufoca a realidade – que, na minha opinião, foi o que levou ao início da tragédia. Eu sou apaixonada pelos trabalhos da Sofia Coppola como diretora, e sua incrível sensibilidade casou perfeitamente com a história – e olha que esse foi o primeiro filme que dirigiu. 

Se alguém se interessou, recomendo uma leitura cuidadosa, pois, de outra maneira, a riqueza da narrativa pode escapar (eu mesma espero poder reler com mais calma algum dia). E também acho que vale a pena conferir o filme, mas sem comparar um ao outro, apenas deixando que eles se complementem. 

E é isso! beijos procês. ♡

#GIRLBOSS

Fazia uma era que estava querendo ter #GIRLBOSS na minha prateleira. Ele é famoso por inspirar as pessoas e eu estou quase sempre faminta por inspiração. Como a maioria já deve saber (esse livro está por todos os blogs) trata-se de uma semi-autobiografia da Sophia Amoruso, contando sua trajetória que levou à criação e posterior enorme sucesso do site Nasty Gal.

Sophia conta sua história desde sua adolescência “rebelde”, quando ia contra o sistema capitalista, só usava roupas de brechó, colecionava empregos ruins, chegando a procurar comida no lixo e a roubar objetos em lojas para vender (vale dizer que mais tarde ela descobriu na honestidade uma das chaves do sucesso). Até que criou um brechó no eBay e, pela primeira vez, realmente gostou de trabalhar. E quando amamos algo, não economizamos esforços em torná-lo espetacular. Sophia arregaçou as mangas e trabalhou sem limites de horas por dia, conquistando clientes, direto de seu apartamento alugado e minúsculo.

O livro é uma mistura entre incentivar o leitor a ser ele mesmo e dar dicas de como encarar e crescer no mundo do trabalho e também mostrar um pouco a realidade das coisas, ou seja, ninguém vai começar sua vida profissional cheia de mordomias e nada vai acontecer se não tivermos resiliência nessa vida. Mas acho que vale manter em mente que, por mais a Sophia tenha trabalhado her ass off pra chegar lá, ela encontrou seu grande dom aos 22 anos de idade e isso é raro. Ou seja, não é todo mundo que será CEO de uma empresa multimilionária com 30 anos de idade.

Mas sim, o livro é ótimo como uma mensagem de faça acontecer. Sophia criou sua empresa baseada em sua visão individual, colocou sua personalidade deslocada em cada detalhe da empresa e, por isso, deu muito certo. #GIRLBOSS é pra ter na cabeceira e conferir as dicas repetidamente. Você termina a leitura com a autoestima reforçada e força de vontade injetada na veia.

“Toda vez que você toma uma boa decisão ou faz algo legal ou cuida de si mesma, toda vez que você vai para o trabalho e trabalha com empenho e dá o seu melhor em tudo que poder fazer, está plantando sementes para uma vida que você só pode esperar que cresça além dos seus sonhos mais extremos. Cuide das coisinhas pequenas – até das coisinhas que você odeia – e as trate como promessas para seu próprio futuro. Logo você vai ver que o destino favorece os audaciosos que põem a mão na massa.” 

 

Natal + Harry Potter ♡

Espírito de Natal é muito amor. Acredito, até mesmo, que eu merecia viver em um lugar que me honrasse com uma neve nessa data, e que eu pudesse acender uma lareira e tomar um chocolate quente, como os filmes me ensinaram que é tão bom fazer haha. Mas, mesmo no calor do nosso verão, repito, Natal é amor. Amo as decorações, as músicas, as comidas. Ainda mais porque esse ano minha família entrou no clima como há tempos não fazia, não sei, talvez o ano difícil tenha nos unido.

É contraditório, mas, chega nessa época meu coração se aperta demais. Talvez beleza em si tenda à me deixar assim. Pode ser a inexperiência dos meus poucos anos falando, mas o ciclo do passar dos anos, a esperança do recomeço e renascimento de sonhos são lindos pra mim.

Essa também é a época em que a nostalgia que sempre está comigo atinge um nível superior. Tenho vontade de ouvir meus discos dos Beatles favoritos e assistir Love, Actually o tempo todo. Mas aquilo que realmente avisa ao meu ser que o Natal está aqui é ler Harry Potter.

Li a série pela primeira vez quando tinha 12 anos e era fim de ano. Desde então, é só eu ver as primeiras árvores enfeitadas pipocando por aí, que fico sedenta por um pouco daquela magia. Já virou uma tradição comigo mesma, um compromisso com o bruxinho. Esse ano, apesar de estar cheia de livros novos em casa e de já ter relido A Ordem da Fênix durante as férias de julho, precisei reler mais um Harry. O livro da vez foi As Relíquias da Morte, o único que ainda não havia relido.


É praticamente impossível pra mim fazer uma análise toda técnica dessa série. Já li uma quantidade considerável de literatura consagrada e sei que os livros HP não são os mais sofisticados filosoficamente, não são escritos com o mais alto aprimoramento, mas, honestamente, tudo isso importa 0%. Arrisco até a dizer que aqueles que não gostam da série só possuem essa opinião pois não esbarraram com ela no momento certo de suas vidas, ou a taxaram de preconceitos.

Apenas quem leu vai me entender. Não houve nenhum outro livro que me transportou tanto e tão maravilhosamente quanto esses. Hogwarts é o cenário utópico que sinto que melhor conheço. Todo ano, quando leio um dos livros e retorno para aquele mundo, a sensação é, verdadeiramente, de voltar pra casa e me pergunto porque me afastei daquelas páginas por tanto tempo.


  

Sendo o último livro, revivi a primeira vez que chorei quando o li e quando o último filme estreou no cinema. E agora, depois de anos, o fim do livro, o fim da série, o fim do meu colegial, o fim de 2015, o fim da minha vida adolescente. Tudo apertando, quase esmagando meu coração. Essa história de sair da escola está sendo mais lagrimosa do que eu pensava que seria… Como é difícil ser tão nostálgica!

potter

As conexões estranhas da minha cabeça 

Já vou avisando que esse post vai ser bem random, talvez um pouco sem sentido, mas estou com vontade de falar sobre arte e sem muita inspiração para assuntos deeps. E essa sou eu evitando a vida.

Vocês conhecem o Saia Justa? É um dos raros programas de TV com faladeira que eu gosto de assistir, é transmitido pela gnt e é literalmente o que falei, um programas de faladeira, onde quatro mulheres – Astrid, Mônica, Bárbara e Maria – se juntam semanalmente para discutir assuntos relevantes e outros tantos irrelevantes. Parece conversa de italiano pelo volume e também conversa de amiga pela compreensão.

Dessas, a Maria Ribeiro é a faladeira com a língua mais afiada e é talvez o meu tipo favorito de pessoa: toda controversa, imperfeita, mistura o clássico com o pop, o filme consagrado com a novela, os grandes autores e a revista de fofoca. Mas já acumulou maturidade para poder expor suas inseguranças e transformar essa confusão em escrita boa. Comprei Trinta e oito e meio, seu primeiro livro de crônicas, essa semana, postei uma foto dele no Instagram e a Maria foi e comentou… foi lindo. Quando podemos contar a um autor que estamos lendo o livro dele?

Ela chamou atenção para o fato da minha foto ter colocado seu livro lado a lado com A Festa da Insignificância, do Milan Kundera. Realmente, Kundera é um autor consagrado e escreveu um dos livros mais incríveis do mundo – A Insustentável Leveza do Ser – mas dar tanta moral à Maria quanto à ele sou eu praticando as práticas da própria, misturando o improvável e amando toda a arte que coincida com a minha vibração.

A Maria, que ama Wes Anderson – o escritor e diretor de filmes como Os Excêntricos Tenenbaums e O Grande Hotel Budapeste – vive a procura de uma vida improvável como a dos personagens criados por ele, enxerga na esquisitice o mais divertido e não deixa de expressar seu amor por aqueles que a inspiram.


Deu pra entender onde quis chegar? Acho que não, né!? Essa sou eu querendo me afogar mais uma vez na literatura e no cinema. Vou criando na minha cabeça um mundo dominado pela arte, cheio dos Kunderas, Wes Endersons e Marias. Pincelado de toda ironia e sensibilidade que artistas como esses tem a oferecer, recorrendo à fantasia para evitar um choro à cada esquina. E muita divagação – que está feroz nesse texto. Ah, e Ed Sheeran para a trilha sonora – hoje vou descansar meus Beatles e curtir um novinho!

“O sonho é a prova de que imaginar, sonhar com aquilo que não aconteceu, é uma das necessidades mais profundas do homem.” Por fim, essa frase do Kundera me ajuda a me entender melhor e me sentir mais normal após escrever um texto tão esquisito.

Ps: a ilustração do livro da Maria foi criada pela artista Rita Wainer, provando que gente boa se cerca de gente boa ❤️

O livro da minha vida

 

Na primeira vez que li Jane Eyre, falei pra minha prima “Esse livro fala com a minha alma”, e é exatamente assim que posso descrever minha relação com a história até hoje. Foi publicado em 1847, escrito por Charlotte Brontë, irmã da Emily, escritora de O Morro dos Ventos Uivantes. O enredo é esse: Jane, uma órfã, na infância é deixada aos cuidados de uma tia que não a ama e, mais tarde, em um orfanato com métodos cruéis de ensino. Quando entra na idade adulta, vai para Thornfield Hall, para ser tutora de Adele, uma criança sob cuidados do dono da casa, Edward Rochester. E, então, sim, Jane e ele se apaixonam.

Acontece que o casal dessa história foge do padrão por ambos serem completamente imperfeitos. Não são lindos, não são moralmente corretos na maior parte do tempo. Mas ambos são incrivelmente reais e profundos – e perturbados. Esses são dois dos personagens que mais amo e entendo, é meio inexplicável, mas os demônios deles fazem com que eu entenda melhor meus próprios demônios.

O cenário do livro me fascina. Em montanhas isoladas na Inglaterra do século XIX, passando a constante sensação de frio, céu nublado e solidão. Ainda tem um mistério creep que assombra a história – uma das surpresas mais famosas da literatura – responsável pela virada no enredo. Enfim, amo muito tudo isso!

Esse exemplar do livro é todo especial, uma edição única, em inglês, imprensada na década de 1980 pela Oxford, em papel especial e tudo – coisa de gente chique mesmo! E não, não é meu! Mas me foi emprestado por alguém muito bondoso haha!

A adaptação para o cinema foi sucesso, na minha opinião. A fotografia e a trilha sonora são maravilhosas e eu acho que captaram muito bem o lado dark da história. Mia Wasikowska e Michael Fassbender são perfeitos para os personagens principais. Enfim, muito amor!

 (Pôster mais lindo ever!)

E esse é meu lado mais romântico, é daqui, pra baixo hahaha