A vó Helena

Nos últimos tempos ando tendo muitas lembranças da minha avó materna. De quem ela era como minha vó, antes de suas lembranças lhe serem tiradas.

Lembro que na casa dela o almoço começava a ser feito no meio da manhã, lembro do cheiro do seu feijão e da sua carne temperando toda a casa. Essa lembrança vem acompanhada do barulho da panela de pressão.

As tardes eram silenciosas. Depois que a louça já havia sido lavada e as bagunças, arrumadas, minha vó se punha a preparar seus tapetes de crochê ou a separar os grãos de feijão. Concentrada, fazia um barulhinho com a boca que me dava conforto. Depois dessa tarefa feita, ela geralmente ia cuidar de suas flores, e nunca se cansava de me falar sobre elas e como deviam ser cuidadas com carinho. Não me lembro quais os nomes das flores do seu jardim, apesar dela ter me falado várias vezes. Mas lembro o quão mágico aquele jardinzinho modesto era pra mim, atiçando minha imaginação.

Geralmente, no meio da tarde, eu assistia aos desenhos da TV Cultura ou à Sessão da Tarde, mas sempre acabava adormecendo. Quando acordava, minha vó me preparava uma banana amassada com achocolatado, ou um abacate picado com açúcar, ou um pão francês em rodelas com manteiga (sempre colocando um pano no meu colo pra não sujar nada). Mas os melhores dias eram quando ela mesma fazia o pão. Eu amava vê-la sovando aquela massa e sempre dava um pedacinho pra eu brincar. Uma vez, fizemos um pão em forma de homenzinho – ela usou cravos pra fazer os olhos e os botões de sua camisa. E quando o pão saía quentinho do forno e a manteiga derretia em cima dele, a sensação era inigualável. Também preparava seu pão de coco, sua rosquinha, seu sagu de goiaba, seu doce de abóbora: as melhores coisas que já comi na vida, e diferentes do de qualquer outro cozinheiro.

Em outros dias, ela me levava pra andar de ônibus pela cidade. Ela se arrumava, com suas saias, suas sandálias, seu cardigã, seu batom, seu perfume… sua vaidade. Eu, pequena, ficava apreensiva ao subir no ônibus, ao olhar nossa pequena cidade por sua janela alta. Me sentia aventureira e livre por estar ali, mas ao mesmo tempo segura por tê-la comigo.

Lembro do Sol entrando em sua cozinha à tarde. Lembro dela cantando “boi da cara preta” pra mim. Lembro de nós duas assistindo Edward Mãos de Tesoura na Sessão da Tarde e ela dizendo: “essa história é linda”. Lembro dela engomando seus tapetes. Lembro do cheiro da sua casa. Lembro do seu abraço apertado. Lembro de sua voz dizendo “Põe uma blusa, eu empresto”, “Toma cuidado”, “Vai com Deus, filha”.

Essas são algumas das lembranças mais preciosas que tenho e eu não seria quem sou sem elas. Saber que nunca mais vou ter isso, apesar dos olhos dela ainda abrirem todas as manhãs, aperta, quase esmaga o coração.

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7 comentários

  1. Eu tive o prazer de comer um dos pães da vó Helena! A imagem da gente comendo é tão nítida na minha cabeça que até assusta. Passava manteiga, ela derretia e eu não acreditava no sabor que tava sentindo! Provavelmente não escondi isso, porque lembro que ela e outra pessoa (acho que sua mãe) estavam de pé na mesa nos observando comer sentadas e falar o quão maravilhoso tava!

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