O peso que ela carrega

O refresco e a simplicidade da infância duraram pouco pra ela. Sentiu o peso das perdas e exigências logo cedo. Cedo demais. Passou a querer melhorar a si mesma. Feria seu corpo, feria sua alma. Arrastava-se pela vida. Com seu olhos delicados, enxergava a beleza do mundo como poucos, mas essa mesma beleza a comovia de tal maneira, que a diminuía diante de si mesma, a machucava.

“Nunca fui feliz. Nunca gostei realmente da minha vida”. Ouvi isso da boca dela, essa mulher, que basta conhecer um pouco para se sentir encantado. Poucos a entendem, porém. Sempre teve tudo o que muitos queriam, e suas perdas não foram maiores que a dos outros. Poucos entendem que ela já veio para o mundo com uma alma dolorida. Uma alma que sente sem descanso. Passou os anos da adolescência assim, submersa. Seus ombros não suportavam, tudo era pesado, tudo era sentido. Se debatia, sentia seus pulmões queimarem, entendia o braço em direção à superfície.

Quando foi estudar longe de casa, sentiu o gosto da independência juvenil. Essa liberdade acariciou seus cabelos, beijou-lhe o rosto, a embalou em um abraço. Imergiu, respirou, viveu. Até que sentiu garras pegando-lhe delicadamente os pés e, de repente, puxando-lhe bruscamente até o fundo de seu familiar e sufocante poço.

Cresceu, construiu para si uma carreira pela qual pouco se apaixonou. Vivenciou momentos de garbosa leveza, saboreou os raros dias em que a paz decidiu visitá-la. Passou a entender mais, sobre si, e sobre todo o resto. Deixou de temer os recomeços. Mas não, não aceitou. Ainda deseja para si um peito menos angustiado.
Mas, o que me motiva a organizar essas palavras, tão cuidadosamente, é a contradição desenhada quando se está próximo dela. Apesar de toda dor que já sentiu, sua energia é deleitável, sua conversa aconchegante. E seu olhar é nu. Olhando para os olhos azuis dela, a sensação é de estar olhando para uma galáxia. São tão azuis, que possuem vários tons da cor. São olhos pincelados! Seu corpo é delicado, seus gostos são refinados. E ela entendeu o propósito dos abraços, entendeu que deve transmitir o bem.

Ela sente o obscuro, mas enxerga a beleza. Ela está exausta, mas suas palavras continuam gentis. Ela é a definição de extraordinário e, nesse mundo tirânico, continua só.

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