um pouco dos personagens que moram na minha mente.

(pra ressuscitar esse blog)

Faz sete anos que Mário, avô de Marina, faleceu. A garota, hoje com 20 anos, caminha pelo cemitério. Já de longe avista o túmulo onde se encontra uma gravura do um homem sorridente, pratilheiras de livros ao fundo, uma gravata que exibe as cores do arco-íris no pescoço.

Nunca esquecerá a última vez que o viu. Tinha 13 anos. O avô saiu do hospital, buscou a garota em sua casa, levou-a até a praia. Esticado na areia, ao som das ondas, fechou os olhos e sussurrou: “Quero que sinta a vida enquanto estou aqui deitado”.

São essas as palavras hoje gravadas em seu túmulo. Marina obedece: sorri, deixa que uma lágrima escorra por seu rosto, sonha. Vai embora. Uma fita que exibe as cores do arco-íris amarradas em seu cabelo.tumblr_ohontzO87L1vuf8d0o2_1280

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A estrangeira

A moça da padaria, com olhar distraído, colocou três pães no saco de papel e me entregou. Mas eu havia pedido apenas dois. Ou será que pedi três, mesmo sem querer? Talvez a distraída seja eu. De qualquer jeito, não pude deixar de simpatizar com ela, que pode estar, assim como eu, com a cabeça cheia demais – mas alguns diriam vazia demais. Bom, pouco importa. Saio da padaria e sou contaminada pelo mesmo olhar distante que detectei na atendente. Meus olhos desfocam da calçada, meus pés me levam até minha rua, daquela forma automática como os atos diários acontecem – sem que tomemos real consciência deles.

Minha rua, a 1, é a mais arborizada da cidade. Os galhos das imensas árvores formam, acima dos paralelepípedos, um grande arco verde. Houve uma época em que meu maior desejo era poder morar em um lugar assim, mas sei que hoje não o aproveito o suficiente. A cidade, a alta velocidade sempre me cansou mas, dentro de sua inércia, sou acostumada, no fim do dia, a correr para o plácido conforto que encontro dentro de casa. Forço-me a desacelerar o passo, respiro fundo e apuro os ouvidos para o farfalhar das folhas das árvores. Nesse momento, passo em frente a velha biblioteca municipal. Percebo que, mesmo há tantos anos morando aqui, esse foi o único ponto da cidade com o qual realmente me familiarizei.

Mas gosto da sensação de me sentir uma estrangeira. Trouxe muitos dos meus hábitos de minha cidade natal – os cafés passados, as longas horas de leitura, a quase constante solidão – prático-os de forma quase religiosa. Tudo o que aprendi em casa continua comigo, mas os amo ainda mais agora que não preciso sentir o ar caseiro, que durante toda a vida tanto me atordoou. Fugi e trouxe comigo uma bagagem inesperada, na qual só fui capaz de adicionar algumas milhares de páginas lidas. Vejo o que sou. Uma falsa aventureira, uma senhora enganadora e destruidora dos próprios sonhos.

A lembrança da fervorosa escritora não publicada que já fui, de repente, surge diante de mim como uma sombra, como se houvesse aproveitado um momento de distração, arrastado-se desde o fundo de minha mente onde há tempos encontrava-se aprisionada, ansiando por ser.

O vento fica mais potente e mais gelado. Balança os galhos das árvores e o farfalhar de suas milhares de pequenas folhas mistura-se ao canto pujante dos pássaros no fim de tarde, criando uma orquestra que embala a cena de meu caminhar, em um ritmo quase teatral. Era sobre isso. Sobre a sensação de nostalgia e de descoberta, que nos invade sem pedir licença. Sobre ínfimos momentos de vida. Inexplicáveis, raros. Os quais estamos todos tão famintos por. Era para cada um desses sentimentos e sensações que uma versão mais jovem de mim esperava encontrar palavras para descrever.

Chego em casa e decido escrever. Escrevo esse texto que lês. A narrativa encontra o presente e encontro-me ciente do agora. Ciente de cada respiração, de cada movimento diminuto. Me pergunto se me encontro em combustão, se irei finalmente encontrar as respostas. Ou se este é apenas um rascunho a mais para a pilha. Talvez eu possa fazer deste o exemplar definitivo de meu fracasso em expressar o que carrego de mim, de organizar minhas infinitas horas de reflexões pleonásticas.

A folha e o lápis me encaram com olhos questionadores. Se perguntam quem me tornei neste período de ausência. “Teremos a resposta? Continuará ela a escrever?” Indagam. “Ou ela engana a si mesma? Talvez abandone-nos mais um vez”.

Quem serei? Me deixarei levar pela tranquilidade do normal? Serei como a senhora que mora ao lado, que cuida das plantas e dos netos? Ou perderei minha razão procurando minha mente, como fez Clarice?

Perderei minha mente procurando minha razão?

songs i love 

Eu descobri TANTA música maravilhosa nos últimos meses, então aqui tá um pouco da trilha sonora da época mais linda-angustiante-incrível-melancólica da minha vida até agora:

música, você é a melhor coisa que o ser humano foi capaz de criar.

deixa ela entrar

É tanto tempo que passamos nos arrastando por aí, tropeçando em nós mesmos, errando as esquinas que viramos. Já acordando com a mente enebulada e exausta. Procurando beleza em tudo e só conseguindo encontrar um monte de sentimento oco.

É tempo, é muito. Nunca acaba e a gente já tá mergulhado naquele lugar abafado, de eco, de vazio.

Então chega um dia em que nos surpreendemos com algo pequeno. Que o amor próprio dá as caras. Que algumas pessoas a nossa volta decidem cuidar. Algumas coisas mudam e outras se mostram mais fiéis do que nunca. Seu interior termina as obras que duraram tantos anos e causaram tanto distúrbio. A vida se alinha. A mente e o mundo conversam e entram em um acordo. A ansiedade não tem mais tanta força. As insatisfações ficam pequenas diante das coisas que lhe excitam, as vontades são mais poderosas e estar no mundo de repente vale a pena. A gente percebe que anda respirando um ar mais leve.

É estranho, mas parece que a felicidade tá querendo te conhecer melhor. Ela é aquela amiga de infância que mudou pra longe quando você cresceu um pouco mais e é estranho que ela queira entrar outra vez em sua vida, assim, do nada. Seus anos construindo uma mente cética não lhe deixam acreditar nessa relação tão pura. Ela chegou, mas com certeza planeja ir embora logo, lhe passando a perna. Ela chegou, mas vai ter preço e trazer consequências. É melhor não se apegar, assim a decepção vai ser menor.

A vida nos deixa despreparados pra quando a felicidade aparece. Os anos de sufoco fazem com que a gente duvide da alegria e fique desconfiado diante de muitos dias bons, de muitas conquistas. Parece justo? Acho que já chega de ficar tão ansioso toda vez que tudo parece bem e sair criando motivo pra se preocupar.

A dor precisa ser sentida, precisa mesmo, todinha. Mas quando a vida dar uma clareada, acredite, você merece. Deixa a felicidade entrar. Mesmo sabendo que amanhã ela pode já não estar mais aqui, trate ela bem. Convida pra passar a noite, pra ficar quanto tempo precisar e pra voltar quando quiser. Fica mais, mas promete que não vai forçar a barra. Fica e deixa eu aproveitar você.

É difícil de acreditar que a vida vai ser tão boa, mas, de tempos em tempos, ela simplesmente é.

uma compartilhada sincera 

Hoje passo por aqui pra espalhar amor em forma de fotografia, estética impecável, minas fodas e muita sensibilidade. Acompanho o trabalho da Janis pelo Instagram – @janisjfl – há alguns anos e já fazia tempo que queria registrar aqui a inspiração que a fotografia dela traz pra minha vida. É mulher fotografando mulher, enaltecendo a beleza que existe em todas nós, sem sexualisar a sensualidade feminina. Enfim, admiro demais e a beleza é de encher os olhos.

E aproveito pra falar também da Duda – @dudais – cujo trabalho segue a mesma linha. Gente jovem criando arte cheia de personalidade é lindo de ver ❤

(eu não sabia que gostava tanto de pernas até escolher as fotos pra montar esse post)

Wes Anderson e poster art

Quase todo mundo que gosta de cinema já ouviu e leu bastante sobre Wes Anderson, mas eu queria apenas deixar registrado que acabo de terminar a cinematografia desse artista incrível e, quem sabe, apresentar o trabalho dele pra alguém que ainda não o conheça. Cada um dos 8 filmes escritos e dirigidos por Wes valem a pena e formam um universo único dentro do cinema. Sua principal característica sendo uma fotografia caprichadíssima, que vai evoluindo à cada filme, até chegar à perfeição estética que é O Grande Hotel Budapeste. Além desse, meus favoritos são Os Excêntricos Tenenbaums e A Viagem para Darjeeling mas, de verdade, todos são incríveis!

Bottle Rocket (1996) e Rushmore (1998)

The Royal Tenenbaums (2001) e The Life Aquatic with Steve Zissou (2004)

The Darjeeling Limited (2007) e Fantastic Mr. Fox (2009)

Moonrise Kingdom (2012) e The Grand Budapest Hotel (2014)

Pra ilustrar esse post eu decidi escolher alguns posters alternativos criados por fãs por aí, em vez das imagens mais simples que geralmente uso. São vários trabalhos lindos!

ps: A quantidade de tempo que gastei escolhendo essas imagens e organizando-as chegou a ser trágica! Talvez nem pareça, mas tenho um certo perfeccionismo com a aparência do blog, por isso tento deixar tudo o mais simples possível. Tantas opções de cores e texturas pra serem combinadas me deixaram MUITO atrapalhada. Enfim, toc.

a place within myself

Existe um cenário localizado em algum lugar do meu futuro, no qual penso bastante: eu tenho um trabalho estável, em uma editora, talvez. Não é a rotina de trabalho mais eletrizante do mundo, mas nele eu utilizo um pouco do meu conhecimento adquirido na graduação e um pouco de criatividade. Não sou rica, mas tenho o suficiente pra morar sozinha, provavelmente em um apartamento e consigo pagar minha contas sem preocupação. Tenho dois gatos (quem sabe três?). Alguns vasos estão pendurados perto da janela e há várias suculentas em cantinhos da casa. Minhas prateleiras são abarrotadas de livros. Eu leio bastante. Cozinho pra mim mesma e já larguei a carne de vez. A cada ano viajo por duas semanas, quem sabe três. Talvez por um mês completo. Essas viagens me renovam, me emocionam, me trazem sensações inéditas. Venho pra casa e me sinto acolhida no ambiente que eu mesma criei, limpo e organizado à minha maneira. Chega o dia em que já me sinto confortável em minha própria pele e as manhãs deixam de ser um peso. O amanhã deixa de ser um peso.

Talvez pereça pequeno pra alguns que aspiram por fama ou riqueza. Ou, talvez, para aqueles que já passaram pela vida batalhando, esse tipo de paz e liberdade pareça uma ilusão. Mas, não sei, eu penso bastante nesse futuro e nesse lugar. Pode também parecer uma melancolia do tipo no alarms and no surprises, talvez seja, mas espero um dia ter tudo isso. Ser mais centrada, mas ter espaço pra quando precisar viver minhas crises – e continuar na longa estrada do auto conhecimento.

Por enquanto, querer continuar por aqui na expectativa de ler mais um livro bom, adicionar mais um filme à lista de favoritos, sentir a brisa noturna mais uma vez, mais uma gargalhada. Continuar por aqui pelas expectativas e pelas pequenas coisas. Sobrevivemos dessa forma e, por algum tempo, tudo fica bem.

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inspiração: “this is what my generation is given, this is how low our standards for happiness have to be. a humble existence, a small piece of the world for ourselves, and comfortable stability are just as out of reach for some of us as fame (…)” (x)